13 de fev de 2009

Do julgamento e do cavaleiro de Paus...

Os olhos dele estavam cinzas. Aqueles mesmos olhos que anos atrás eram a razão de viver dela. Aqueles mesmos olhos quem um dia disseram que também a queriam. E um dia ela o quis, com a força da sua alma, com tudo aquilo que sua adolescência permitia conhecer como amor. Ela um dia o amou, mais do que a si mesma. Amou com o pouco que sabia, mas com a infinidade de tudo o que sentia. A pele também tinha perdido aquela textura de "aspirador de pó" que sempre parecia querê-la sugar pra dentro. Mas mesmo assim, por uma fração de segundo, hoje ela quis novamente se deixar ser sugada. Claro que o instante durou muito menos do que costumava durar. Já haviam pelos brancos na barba e amassados de pele em volta dos olhos, que volta e meia durante a conversa, quando olhava pro lado, não pode deixar de reparar. As mãos também haviam mudado bastante. As mãos que um dia significaram tanto pra ela, que arrancavam notas e melodias que ela achava as mais lindas e que calaram por muitos anos sua vida, que contaram pra ela, durante algumas noites, que nada se compara ao toque de um amor... as mãos estavam tristes. E por outra fração de segundos ela teve inveja da mulher que agora dormia com ele todas as noites. Em seguida, com toda humanidade que lhe é permitida, perguntou mentalmente (a quem quisesse ouvir) se alguma das que passaram antes e depois dela teriam sentido daquele jeito o toque dele. Aquele toque que dizem que só as almas pareadas sentem. Se mesmo agora com as mãos tristes, caladas e tímidas, a outra sentiria o que ela sentiu. Porque no seu íntimo, por mais que quisesse calar o desejo, ela sabe que aceitaria como um faminto aceita um pão velho, aquelas mãos tristes. Não por necessidade, mas só porque eram dele. E por mais que ela estranhasse (e acreditem, muita coisa nela havia também entristecido durante esses anos), suas mãos não suaram. Permaneceram secas todo o tempo. Acredito que as mãos eram o reflexo da alma dela. Sem querer e sem saber, ele bebeu todas as lágrimas dela junto com cerveja até alguns anos atrás, e muitas vezes sem nem sequer brindar com ela. Ele foi inconsequente? Ele foi inconsequente. Ela teve orgulho de suas mãos secas. Ele falou que ela continuava a mesma, olhando o mundo sem parar, num movimento de olhos incessantes, com as bolinhas dos olhos rodopiando pra todos os lados pra captar tudo. Ela disse que continuava olhar o mundo sem parar. Ele brincou, disse que ela um dia ia infartar. Ela riu e disse que mesmo com as bolinhas girando sem parar ela estava mais tranquila do que era. Ele nunca entendeu que essa era uma fuga dos olhos dela pra não encontrarem os dele. Por isso que muitas vezes ela se pergunta, sinceramente e quase gritando internamente, se ele é ou foi mesmo o grande amor da vida dela. Grandes amores deviam ter mais sensibilidade pra perceber o outro! Eles trocaram meia dúzias de palavras soltas, fingindo priorizar o motivo do encontro. Pode ser que ele estivesse priorizando, ela também. Mas a ausência repentina de qualquer vestígio que indicasse ainda o amor ou paixão (prefiro me abster de entrar nesses méritos) por ele a deixou confusa. Era muito melhor que acontecesse o de sempre: o encontro, os olhos dele, a química, o tesão (que ela sempre se enganava dizendo que era só isso que a prendia a ele, e por algumas horas), a tristeza por não bastar pra ele e uma dor conhecida mas convencida de deixá-lo partir sabendo que ele um dia voltaria redundantemente de novo. Ela se sentiria mais confortável se fosse assim, ela sempre se assusta com as coisas que não pode entender e controlar no que diz respeito à sentimento. Mas dessa vez não: sentiu os olhos, logo depois veio a indiferença, quando ficaram sozinhos por um instante, ela o conhecia suficientemente bem pra saber o que ele estava pensando: provavelmente na sua bunda ou nos peitos, enquanto os dois faziam um esforço tremendo e ridículo pra fingir dar importância à conversa sobre a cor das paredes, o tipo das cadeiras e etc, nessa hora sim, surgiu uma vontade enorme de fazê-los se calar invadindo a boca dele, sem pedir licença ou fingir falsa cerimônia. Ela sabia que ele consentiria. Em seguida veio um misto de carinho e pena. Pena de ver como o tempo devorava a personificação do que fora pra ela, um dia, o grande amor. Pena de ver como aquela vida, tão antes expelida por todos os poros, se entristecia em si mesma, num eterno ciclo, assim como o retorno dele: triste e eterno. Ela ficou triste de ver o brilho daqueles olhos, que um dia disseram tudo pra ela, inclusive o que não se pode dizer, se afastando tanto daquela alma. Ela nunca entendeu muito bem tudo isso, nunca foi muito romântica, embora carinhosa. Nunca se permitiu acreditar em amor, ele a ensinou assim. Ele a ensinou a amar, e ela o amou como acredito que só se possa amar uma vez, mas também a ensinou não esperar muito do amor. Que ele é o rei da razão e não ao contrário, e que a razão, como boa súdita, deve aprender a obedecê-lo. E ela é eternamente grata a ele por isso, por ensiná-la, mesmo sendo ela um ser que nunca soube achar a espera algo confortável, a não esperar muito do amor. Hoje, ela desconfia que isso tenha sido uma atitude de possessão, porque ele a marcou e ela sabe, que desaprendeu a amar desse jeito. O tempo passou pros dois, deixando suas marcas e trazendo a experiência e o amadurecimento como seus brindes pra consolar. Ela já não entende mais, não faz questão de entender, nem ele, nem o destino. Ela já não acredita mais em amor, nunca acreditou muito. Ele só a vê com admiração e tesão, sempre viu. E os dois, cada um no seu mar, se deixam empurrar pelo vento tempo. Vez ou outra, se encontram nos cais debaixo das estrelas, rezam pra Janaína, navegam juntos, cantam algum coco desgarrado ou alguma ciranda, dão umas risadas, tomam uns tragos, se amam. Cada um ao seu modo: ela sabendo, mesmo que secretamente e mesmo que tente negar, que ali naquele corpo mora um pedaço dela. E ele, sem sequer imaginar que talvez no corpo dela more um pedaço dele. Os olhos dele um dia disseram pra ela, sem que ela perguntasse, que de algum modo sem que se tenha explicação nesta terra eles eram um do outro. Depois de uns minutos de confusão na alma, alguns movimentos de fuga do globo ocular, algum desejo da saliva dele, veio a indiferença, a conformidade com o destino dos dois. Um beijo na bochecha, um "a gente se fala", as mãos dela secas e as dele tristes unidas até enquanto os limites do corpo podiam, os olhos cinza dele é que fugiram dos dela nessa hora. E quando o corpo dele já se retirava pra um lado do destino, e o dela pra outro, os dois pares de mãos ainda se tocavam. Ela já estava acostumada com essas idas, porque sabia, de uma forma que nem a sua tão hostentada racionalidade sabe explicar, que um dia ele voltaria, eles sempre voltariam. Ela sentou, pediu o almoço, e uma cerveja, apesar da dieta. Isso talvez ele também não saiba, mas agora quem tomaria as lágrimas dele com cerveja mesmo sem saber, era ela. Ela comeu, tratou de trabalho, pensou em outras coisas, seguiu velejando. Talvez ele também não saiba, mas pressinta, que ela aprendeu a viver sem ele.