8 de out de 2009

Do cotidiano

Preciso de um diário de papel, preciso sentir mais matéria prima (ainda tem hífen?). Vou comprar um. Mas sei que vai cansar minha mãeo mais do que digitar. E terá um cadeado, porque às vezes inibe quando você lembra que vão ler o que você escreve. É um prazer exibicionista escrever para lerem. Acho minha escrita uma merda, mas acho boa (indagação). Me reveso entre a faxina da casa, que nunca se mantém limpa, a louça do almoço, os textos pra adaptar e a preguiça de fazer dieta; tudo isso com um dia chuvoso. Li uns textos de uma amiga ontem, achei ótimo, mas, ela também tem vergonha de mostrar. Ando insegura e não adianta dizer "segura na mão de Deus" que a coisa não passa. Tem umas questõezinhas antigas que não tô com paciência pra tocar nelas. Ontem entrei no ônibus e havia um menio de rua sentado logo depois da roleta com a cara retalhada. Era um retalho grande, mas grande mesmo que cruzava um olho de cima à a baixo com linhas grossas e pretas. Tinha uma coisa de sangue pisado, ainda rubro. Ficou um rasgo em mim de ver o rasgo. Mas não era só uma rasgo de cara, devia ser também um rasgo de alma. Confesso com um pouco de vergonha que passei ao lado do menino com rasgo segurando a bolsa pelo corredor do ônibus com medo de que ele pegasse. Mais ou menos como quando passo perto de um gato e sempre acho que ele agilmente vai me atacar (daí não adianta segurar a bolsa). Eu tenho esses medos bobos. Ando com vários deles. Quase os mesmos de sempre, mas alguns novos. É, são medos bobos... minha avó se soubesse de algum deles diria: - Pára de besteira menina! Fica pensando bobagem, eu hein! Acho que não terei minha avó por muito mais tempo pra minimizar meus medos. Isso me dá muito medo e dói. Dói de pensar. Tem coisa que a gente sente só de pensar. O pensamento invade e vira tátil, ganha corpo e com o corpo de pensamento toca nosso próprio corpo. Pensamento é corpo criado por nós. O pensamento dos outros nem sempre toca a gente, mas o nosso próprio... Nosso próprio? Tá certo isso? Fica o rasgo na minha cabeça, metaforicamente falando (Deus me livvre!), assim como "dar a alma para ter os olhos" no e-mail. Tem coisa que fica mesmo quando a gente não quer. Acho que nesta tarde estou numa infatilidade tão sábia. Não quero parar de escrever. Acho que vou pegar um cachorro. Mas transar com meu marido com um cachorro em casa deve ser constrangedor. Acho que vou perder a liberdade sexual se pegar um cachorro, vou me sentir tolida (é com lh?). Melhor não, não agora. Penso em passado às vezes. Não de querer voltar, mas de pensar só de pensar. Em todo tipo de passado. Principalmente na infância. Dá saudade, aquela saudade boa. Acho que escrevo pra aliviar os pensamentos, deixar os corpos de pensamentos de medo bem fraquinhos pra que não possam me tocar.