11 de mai. de 2010

Do cadeado de mim


Tenho andado calada, sem paciência, cansada e fechada em mim. Segundo a Saga do Herói do Campbell ser mãe é um feito heróico, e todo herói em sua jornada para seu feito heróico segue uma típica jornada: partida, revelação e retorno, e a maioria deles sempre se isola, precisa encontrar a si mesmo pra buscar a semente que vai potencialmente gerar algo novo e depois retornar. Talvez seja por isso. Não que eu queira ser uma heroína, mas enfim... essa exposição do Campbell leva algum tempo e não me sinto competente para expor numas poucas linhas, acho que nem em muitas.
Tenho fugido das pessoas, por motivo nenhum se não o de me encontrar. Tenho ficado em mim, fugido pra mim mesma, tenho sido meu refúgio e sinceramente tenho me aturado. Acho que tenho sentido saudades da intensidade, a intensidade que eu mesma exigia de mim. Mas é uma questão de mim para comigo mesma. Não tenho tentado me burlar, estou em mim e ainda fechada pra visitas.
Era fogo, virei água e agora sou ar: existo mas não quero que me vejam, é quase isso... Estou nada precisa. Tenho visto tudo em preto e branco, talvez azul só por causa do Pedro. Estou em mim, num movimento parado. E mesmo assim, continuo livre.





Je suis excessive,
J'aime quand ça désaxe,
Quand tout accélère,
Moi je reste relaxe
Je suis excessive,
Quand tout explose,
Quand la vie s'exhibe,
C'est une transe exquise.
(Carla Bruni)

Nada me prende a nada.
Quero cinqüenta coisas ao mesmo tempo.
Anseio com uma angústia de fome de carne
O que não sei que seja -
Definidamente pelo indefinido...
Durmo irrequieto, e vivo num sonhar irrequieto
De quem dorme irrequieto, metade a sonhar.
(Álvaro de Campos)

23 de abr. de 2010

Da canjica e de Ogum



Sim, eu chorei porque queria comer canjica. Assumo. Parece ridículo, mas não existem palavras pra definir o que é um desejo repentino assim do nada, vindo sei lá de onde, banhado por hormônios. Eu ria e chorava porque racionalmente me sentia ridícula em chorar de desespero pela impossibilidade de uma canjica. Meu marido tentava me consolar se oferecendo pra ir até a feira de São Cristovão numa terça quase de madrugada, ele, sem sucesso, tentava segurar o riso tentando compreender e dar a devida importância àquela cena. Por fim, fiquei com pena dele sair numa hora daquelas em busca de uma canjica quente com coco ralado e cravo. Até hoje não consegui comer a canjica. Eu e Pedro aprendemos a conviver com isso.
Agora as pessoas já me dão lugar no ônibus e os colegas de faculdade sabem que estou grávida, somado a isso quando passo em frente as lojas de bebês as vendedoras falam: "- Ei, mãe! Vem dar uma olhadinha...". Confesso que isto é muito prazeroso, te dá uma sensação de potência, de reconhecimento. Agora a sua gravidez não é só algo restrito ao exame bthcg ou às ultras, mas algo compartilhado, reconhecido... É bom...
Me sinto tão plena com meu casamento e com a maternidade, que as modernas (como eu) que me perdoem, mas é como se a vida ficasse completa. Tem horas em que me pego tensa por saber como vou dar conta de filho, casa, faculdade e trabalho. Quanto à isso só vivendo pra saber. O casamento e o comando de um lar também eram um indecifrável mistério pra mim, e hoje continuam sendo, só que menos indecifráveis.
E pra finalizar: Salve Jorge!
Ogum em seu cavalo corre
E a sua espada reluz
Ogum em seu cavalo corre
E a sua espada reluz
Ogum, Ogum Megê
Sua bandeira cobre os filhos de Jesus
Ogunhê


12 de abr. de 2010

Das metas

Tão difícil andar em linha reta. Tão difícil manter as metas. Tão difícil ser concreta.

"Meu coração não se cansa

De ter esperança
De um dia ser tudo o que quer

Meu coração de criança
Não é só a lembrança
De um vulto feliz de mulher
Que passou por meus sonhos sem dizer adeus" (Caetano Veloso)


Nesta vida, em que sou meu sono,
Não sou meu dono,
Quem sou é quem me ignoro e vive
Através desta névoa que sou eu
Todas as vidas que eu outrora tive,
Numa só vida.
Mar sou; baixo marulho ao alto rujo,
Mas minha cor vem do meu alto céu,
E só me encontro quando de mim fujo.
(Fernando Pessoa)

24 de mar. de 2010

De Pedro

Cada movimento, cada chute é um sorriso. Os primeiros sorrisos destinados à vida. A vida que começa, que ganha pulso, força, cadência e por que não consciência? O mais lindo são os movimentos quando falo com ele. Sei que ele me escuta, e ele sabe que o escuto. Nos falamos e sentimos todo o dia, o dia todo. Ele sabe de mim, e eu tento saber dele. Trocamos amor e ar o dia inteiro. Ele sente e sabe. Ele já sente e já sabe. Sabemos unicamente de amor. Meu melhor companheiro, amigo, presente. Essa criaturinha cheia de luz que me preenche de todos os jeitos, e que mais do que nunca, sempre me lembra, entre um chute e outro, que a vida mora em mim. Tenho todo o dia um milagre acontecendo aqui dentro. Deus agindo nas minhas entranhas. Somos um do outro, não só por cordões, mas por puramente amor.

Como ocorre com o poema
tem seu passaporte carimbado para todos os estados
de minha alma, de meu espírito
Você que é onírico, sábio vassalo
Me tiraniza e perde a fala, o fôlego, o faro
Me organiza e ganha o futuro
e ainda segura o jogo duro de viver independente de minha respiração
Espião de meus bastidores
Olhou minhas entranhas enquanto virava ser humano
quieto dentro de mim como as palavras antes de serem poesia...
(Elisa Lucinda)

12 de fev. de 2010

O mundo

Por que voce me trata mal
se eu te trato bem?
Por que você me faz o mal
se eu só te faço bem?

O mundo está virado, ou eu é que ando com os pés no teto. Bem provável. Depois de presenciar uma briga na fila do mercado entre dois homens que repercutiu em mais três brigas só porque um senhor quis impedir a primeira citada, pude me certificar o quanto o mundo anda louco, cruel, egoísta, e outros adjetivos nada bacanas. A culpa é minha, a culpa é nossa. Egoísmo todo mundo tem dentro, um pouco de crueldade também. Mas confesso que sei menos ser cruel do que ingênua. Um monte de coisas em que eu acreditava começam a se revelar pura ilusão. É sempre assim, as pessoas que você mais ama e em quem você mais acredita são as que mais te ferem. Talvez porque tenham muito mais poder, porque realmente importem pra você. Desrespeitada, chateada, descrente, abalada. Somos parte do todo, sou parte de mim. Não sinto vontade de retribuir atitudes ruins que me chegam com atitudes ruins, não mais. Já senti muito. Seria uma pequena evolução nessa escala louca de desumanidade?

"Não posso escolher como me sinto, mas posso escolher o que fazer a respeito." (Shakespeare)

14 de jan. de 2010

Do baú

Tenho alguns anos. Passei por algumas coisas, apesar dos poucos anos. A vida passa por mim a cada dia. Estou nos 23. Vi coisas. Derramei lágrimas e abri sorrisos. Mudo um pouco ou mudo muito. Troquei a preferência de reticências por pontos. Trago um milagre dentro de mim. Tenho rancores, não muitos, alguns. Saudade da infância tenho todo o dia. Meus seios cresceram e ganharam majestade. Lembranças me saudam vez ou outra, mando lembranças de lembrança, mas nunca saberei se chegam. Tenho livros novos fechados. Há um Neruda a minha espera. Especificamente hoje sinto uma fome insaciável. Faço planos para o futuro a toda hora. Tenho preguiça do presente.
Me comovo com as desgraças e com o descuido com o planeta. Queria estudar mais o português. Sinto falta de dançar. Espero aprender mais sobre tarô, culinária, música, astronomia e psicologia. Gosto de música e vestidos de tempos antigos. Gosto de música e vestidos folclóricos. Sonho muito. Geralmente me lembro dos sonhos. Tenho muitos sapatos mas gostaria de ter mais do que tenho. Sou muito saudável. Acredito muito em Deus. Não gosto de água fria nem no calor. Troquei Lenine por Maria Gadú ultimamente. Amei muito. Outras vezes nem tanto. Amo muito. Aproveitei muitas noites com os amigos em diversão "do bem". Hoje também sou dona de casa. Amo meu trabalho. Vivo de arte. Às vezes não dá, mas mesmo assim vivo. Acredito em coisas que nunca vi. Geralmente não acredito naquilo em que não vejo. Queria ter mais tempo pros meus amigos. Queria usar ponto final em coisas que deixei pra trás. Queria usar ponto final em coisas que me deixaram pra trás. Choro com filmes. Adoro animais. Detesto pombos. Sei que sou boa no que faço, mas 10 minutos são suficientes pra eu mudar de idéia. Tenho medo da morte dos meus pais e das pessoas que amo. Duvido muito da vida. Creio em milagres. Dizem que tenho um gênio muito forte. Contudo, dizem que sou inteligente. Gosto de apreciar estrelas. Me desespero fácil. Tenho muita fé. Só gosto de roupas que deixem minhas pernas de fora. Adoro cachecóis no inverno. E óculos escuros. Me entrego aos livros despudoradamente, mas só quando são suficientemente atraentes. Sempre tenho a sensação que não uso 1/3 do meu vocabulário. Existem muitas coisas que não vou esquecer nunca.Sei tanto sobre o outro como não sei de mim.

30 de dez. de 2009

2010

Tô relendo minha lida, minha alma, meus amores
Tô revendo minha vida, minha luta, meus valores
Refazendo minhas forças, minha fonte, meus favores
Tô regando minhas folhas, minhas faces, minhas flores
Tô limpando minha casa, minha cama, meu quartinho
Tô soprando minha brasa, minha brisa, meu anjinho
Tô bebendo minhas culpas, meu veneno, meu vinho
Escrevendo minhas cartas, meu começo, meu caminho
Estou podando meu jardim
Estou cuidando de mim

(Vander Lee - Meu Jardim)