23 de jul. de 2009

Do casamento


É maravilhoso estar unido a quem tanto se ama. Os dias tem outro sentido. Um sentido muito melhor, nunca imaginado. O amo mais que poderia minha alma supor. Anseio por um filho pra enfeitar a nossa vida. Somos uma família, de dois, às vezes de três, às vezes de quatro. Existem risos, algumas discordâncias, muitas brincadeiras, cosquinhas, abraços, beijos, gemidos, felicidade, harmonia e fidelidade, mas fidelidade de sentimento, de opção, não de conveniência. As paredes respiram amor. E nós? Nós? Uma lampadinha louca por um motoqueiro.

Sentia um acréscimo de estima por si mesma, E parecia-lhe que entrava enfim Numa existência superiormente interessante Onde cada hora tinha o seu encanto diferente Cada passo conduzia a um êxtase E a alma se cobria de um luxo radioso de sensações


11 de jul. de 2009

Do mau gênio

a abdicação em que consiste viver me machuca.





14 de jun. de 2009

Das dores das amigas

Essa eterna sacanagem do sexo masculino para com minhas amigas do sexo feminino é algo que me irrita profundamente. E por favor, não venham me dizer que é feminismo, sou esclarecida demais pra isso. A questão é que, em se tratando de fuder com a vida alheia com atitudes loucas, os homens vêm ganhado em disparada. Pra ser uma pessoa ponderada poderia até pesar, tentar entender os motivos que levam esses seres estranhos com peles penduradas no meio das pernas a fazerem umas coisas sem lógica nenhuma e passando completamente por cima dos sentimentos das minhas amigas. Que de santas podem ter apenas os cabelos compridos, mas que realmente se entregam a essas criaturas estranhas. Enfim, partidária ou não, não é a toa que seguinte frase é dita a séculos antes de eu nascer: homens não prestam. Que as fêmeas recolham suas cinzas, cicatrizem suas feridas, sacudam as mágoas e medos, coloquem seu melhor decote, lustrem seus lábios, reinaugurem suas vaginas, enalteçam seus trabalhos e metas, e aprendam a recomeçar, pra amar estes trastes que foram projetados exclusivamente pra nos magoar, mas que paradoxalmente dão sentido à nossas vidas. Para esquecer um traste, só arrumando um menos traste.

ela quer viver sozinha
sem a sua companhia
e você ainda quer essa mulher

ela goza com o sabonete
não precisa de você
ela goza com a mão
não precisa do seu pau

ela quer viver sozinha
sem a sua companhia
e você ainda quer essa mulher

que não sente a sua falta
e quando você chega em casa
ela não sente a sua presença
ela tem um travesseiro mais macio
do que o seu braço
e um acolchoado muito mais quente
que o seu abraço

ela quer viver sozinha
sem a sua companhia
e você ainda quer essa mulher
(Arnaldo Antunes)

4 de jun. de 2009

Do cachecol vermelho

Ontem passei o dia todo querendo escrever esse post. Ontem era poderosa, muito poderosa. Uma segunda pele preta que não protegeu em nada do frio, botas com fivela, vestido preto, cachecol vermelho e óculos escuros. Me sentia uma vilã ou espiã saída de uma novela brasileira do sbt, só faltava um carro. Ontem podia tudo. Circulei pelo rio pra cima e pra baixo, de trem, metrô e ônibus. Era poderosa mesmo sem carro. Eu podia tudo, via que tinha força e beleza. O cachecol vermelho me deu o poder. Encabecei uma reunião e um projeto, por mais absurdo que pareça. Li um livro bom em todos os trajetos, me senti uma Amelie Poulain nos metrôs da Europa no trem Central-Bangu. Bon soir, bon soir...

"eu seguro a minha língua como um garanhão, pela rédea, para que ele não se jogue sobre a égua, porque se eu largasse a rédea, se eu afrouxasse ligeiramente a pressão de meus dedos e a tração de meus braços, as minhas palavras a mim mesmo desmontariam e se arremessariam para o horizonte com a violência de um cavalo árabe que fareja o deserto e que nada mais pode frear."
(Bernard-Marie Koltès)

29 de mai. de 2009

Desobstrução

às vezes há necessidade de se desobstruir.
abrir os poros.
assassinar o que é ruim (em termos internos, claro).
rever o que é bom, e se permitido, reviver.
desobstruir o riso, o suspiro e o brilho dos olhos.

E ele deve ter pensando sobre ela: "E tudo que eu andava fazendo e sendo eu não queria que ela visse nem soubesse, mas depois de pensar isso me deu um desgosto porque fui percebendo (...) que talvez eu não quisesse que ela soubesse que eu era eu, e eu era."

Como eu quero que seja: "Quando partiu, levava as mãos no bolso, a cabeça erguida. Não olhava para trás, porque olhar para trás era uma maneira de ficar num pedaço qualquer para partir incompleto, ficado em meio para trás. Não olhava, pois, e, pois não ficava. Completo, partiu."

Falo tanto de desobstrução, mas está difícil desobstruir. Me esforço mas a história do sonho ainda roça nos meus calcanhares. Não por sentimento, mas por uma dependência desesperada que sei bem do que se trata. Há pensamentos soltos cá dentro, mistura de emoções remanescentes e novas emoções. Pairam muitas dúvidas e poucas certezas. Pairam poucas dúvidas e muitas certezas. Ouço Beirut, escrevo num processo que fica pouco a pouco selvagem no sentido literário e emocional. Morro de medo ainda. Mas sei que sei perder. Ao menos sabia. Me julgo forte, mas cansada. Me julgo cansada, mas forte. Não me julgo nada. Acho que acabei e não sei. Falta só bebida. Lembro agora que sonhei com armas de fogo. Minha mãe estava no sonho e pivetes tentavam me pegar, eu tirava de alguns deles algumas armas e munição, e tinha certeza que atiraria pra me defender. Minha mãe aparecia, pegava trêmula uma pistola, com uma munição incerta e conseguia atirar. Saíamos do cúbiculo pra fugir, tomávamos coragem e atirávamos. Sei que é típico dos peseudo-boêmios solicitar bebida pra escrever. Sou uma pseudo-boemia. Eu via sangue voar, tinha no final uma estação de trem. Eu e ela atirávamos, ela mais do que eu, eu tinha dificuldade em atirar, e me faltava coragem. Confesso que sou uma pseudo-várias-coisas, me confesso pra mim. Os convites não chegam. A psicologia explica o sonho, aliás nem precisa chamar ela aqui, eu mesma me explico. Eu tenho me machucado. Posso começar a me salvar. Beirut é bom. Tenho uma casa agora. Amo muito um homem. As unhas ficaram tão sujas! Tento desobstruir. Como sempre há excesso de informações e sentimentos em mim. Talvez porque eu seja vazia e sobre espaço. Talvez eu não seja vazia e falte espaço. Talvez eu não seja. Não entendo o sentido das coisas. Do sentido não entendo as coisas. As palavras giram aqui em volta. O medo corre atrás delas. Tento desobstruir, e agora entendo que mais que o medo é o amor que roça meus calcanhares. Existem reticências em volta, dentro, acima e abaixo de mim. Há uma pistola e balas, eu engatilho mas tenho medo de atirar. Sou toda amor e reticências. Será que sou?

"Acho que sou bastante forte para sair de todas as situações em que entrei, embora tenha sido suficientemente fraco para entrar."

"Ando meio fatigado de procuras inúteis e sedes afetivas insaciáveis."

*frases Caio Fernando Abreu

24 de mai. de 2009

Da abdicação

AR/TE FAZ RESPIRAR?
ACHO QUE NÃO MAIS.

Pairando do esgotamento mental a ausência de flúidos criativos e artísticos para o momento. Auto-consciência de incapacidade teatral para muitos fins. Desistência próxima, previsível e desejável.

Cego (Arnaldo Antunes)

Estou cego a todas as músicas,
Não ouvi mais o cantar da musa.
A dúvida cobriu a minha vida
Como o peito que me cobre a blusa.
Já a mim nenhuma cena soa
Nem o céu se me desabotoa.
A dúvida cobriu a minha vida
Como a língua cobre de saliva
Cada dente que sai da gengiva.
A dúvida cobriu a minha vida
Como o sangue cobre a carne crua,
Como a pele cobre a carne viva,
Como a roupa cobre a pele nua.
Estou cego a todas as músicas.
E se eu canto é como um som que sua.

23 de mai. de 2009

Do sentido

Absolutamente N
I
I
L
I
S
T
A